A escala da descoberta de vulnerabilidades com tecnologia de IA não tem precedentes. Em seu primeiro mês de operação, o Project Glasswing — consórcio da Anthropic de parceiros de segurança defensiva que usa o modelo Mythos — revelou 6.202 vulnerabilidades de gravidade alta ou crítica em mais de 1.000 projetos open source. Uma verificação independente realizada em um subconjunto dessas descobertas confirmou uma taxa de 90,6% de verdadeiros positivos.2
Esses números por si só já seriam significativos. O que os torna urgentes é a realidade da remediação. Das aproximadamente 23.000 vulnerabilidades descobertas, cerca de apenas 75 foram corrigidas e documentadas nos primeiros meses, segundo o CSO da Deutsche Telekom, Thomas Tschersich. Ele também observou que alguns fornecedores e mantenedores de software pediram à Anthropic para reduzir o ritmo dos relatórios, pois não conseguem absorver as correções com a agilidade necessária.3
O Data Breach Investigations Report (DBIR) de 2026 da Verizon confirma esse padrão no nível do setor. Pela primeira vez em seus 19 anos de história, o DBIR constatou que a exploração de vulnerabilidades superou o roubo de credenciais e o phishing como o principal vetor de acesso inicial para violações, correspondendo a 31% de todos os incidentes. O volume de instâncias de vulnerabilidade alcançou 527,3 milhões em 2025: um aumento de oito vezes em relação a 2022. Enquanto isso, o tempo médio até a aplicação total de patches piorou, atingindo 43 dias, e a proporção de vulnerabilidades exploradas conhecidas pela Cybersecurity and Infrastructure Security Agency (CISA) totalmente corrigidas caiu de 38% para 26%.4
A Anthropic alertou em junho de 2026 que outras empresas e desenvolvedores de IA criariam recursos ofensivos equivalentes entre seis a 12 meses. A janela de preparação dos provedores de serviços é estreita e está se fechando.5
Por que provedores de serviços estão particularmente expostos a riscos
As redes de telecomunicações estão entre os ambientes tecnológicos mais complexos do planeta. Elas também estão entre os alvos mais frequentes de ataques e enfrentam diversos desafios únicos.
Infraestrutura legada anterior aos modelos de segurança modernos. Como Dave Harcourt, Chief Security Authority da BT, observou em 2024, grande parte da infraestrutura de telecomunicações em operação hoje foi projetada em uma época que jamais poderia prever o cenário de ameaças atual.6 Os provedores de serviços gerenciam vastos ambientes brownfield: décadas de elementos de rede, sistemas operacionais e protocolos sobrepostos ao longo de anos de expansão, fusões e transições tecnológicas. Mais de 45% das vulnerabilidades descobertas nesses ambientes continuam sem patches de correção após 12 meses.4
Uma superfície de ataque quase sem precedentes em qualquer setor. O ambiente dos provedores de serviços abrange sistemas de faturamento e CRM, protocolos de rede principal como SIP e Diameter, APIs de arquitetura baseada em serviços 5G, infraestrutura de transporte e roteamento, sistemas de interceptação legal e milhões de dispositivos de rede. Grande parte disso executa software proprietário de fornecedores que os provedores de serviços não conseguem auditar nem aplicar patches de forma independente.
Alvo sistemático de agentes de ameaça sofisticados. A campanha Salt Typhoon comprometeu pelo menos nove provedores de serviços nos Estados Unidos, acessando sistemas de interceptação legal e registros detalhados de chamadas de mais de 1 milhão de usuários.7 Tempos de permanência de até dois anos passaram despercebidos. Em Cingapura, a campanha UNC3886 comprometeu todos os quatro provedores de serviços nacionais, exigindo uma contraoperação coordenada que durou 11 meses.9 No Canadá, um invasor roubou pelo menos 700 TB de dados de um grande provedor de serviços.10 Esses não são incidentes isolados: refletem campanhas contínuas e estruturadas voltadas especificamente à infraestrutura de telecomunicações.
A dependência compartilhada de fornecedores cria riscos correlacionados. Os provedores de serviços do mundo todo dependem de um grupo restrito de fornecedores de equipamentos para redes de acesso via rádio (RAN), bem como de infraestrutura central e de transporte. Uma vulnerabilidade no software de um único fornecedor afeta vários provedores de serviços simultaneamente. A interconexão entre operadoras adiciona uma segunda dimensão de risco correlacionado: ao explicar por que o setor formou o C2 ISAC, o líder de cibersegurança da T-Mobile, Mark Clancy, observou que, em casos como fraude de SIM box, uma operadora pode identificar o dispositivo na rede enquanto o servidor de comando e controle reside na infraestrutura de outra operadora, exigindo investigação conjunta de ambos os lados.11
Defesas atuais: Grande progresso, mas com uma lacuna crítica
O setor não está parado. Três grandes iniciativas surgiram em resposta direta ao cenário de ameaças em constante evolução. Cada uma oferece valor real, mas deixa uma lacuna específica sem solução.
O Project Glasswing oferece às organizações participantes acesso ao Mythos para varredura proativa de vulnerabilidades. Mais de 200 organizações em 15 países aderiram, incluindo provedores de serviços como Verizon, AT&T e BT. O Glasswing já revelou milhares de vulnerabilidades críticas em projetos open source essenciais para a infraestrutura dos provedores de serviços. Mas o seu alcance tem limites. Nokia, Ericsson e outros grandes fornecedores de equipamentos de rede (NEPs) não fazem parte da iniciativa. O software proprietário executado em equipamentos de RAN, núcleo e transporte, que formam a espinha dorsal das redes dos provedores de serviços, não passa por varredura. Os provedores de serviços não conseguem auditar nem aplicar patches nesse código de maneira independente. O ciclo de correção continua totalmente dependente dos prazos dos fornecedores.
O C2 ISAC reúne os CISOs de oito grandes provedores de serviços dos EUA para compartilhamento de informações em tempo real exclusivo do setor privado. Ele preenche uma lacuna crítica de coordenação, permitindo compartilhar indicadores de comprometimento, técnicas de ataque e playbooks de mitigação em velocidade operacional. Os primeiros resultados incluem técnicas de detecção de fraudes com caixas de módulo de identidade do assinante (SIM) entre operadoras e respostas coordenadas a redes proxy residenciais. Mas o C2 ISAC atualmente tem foco nos EUA, sem membros de provedores de serviços internacionais, nem participação de fornecedores de NEP ou sistemas de suporte operacional/sistemas de suporte de negócios (OSS/BSS). Trata-se de um mecanismo de compartilhamento de inteligência, não de um motor de correção.
ISACs e frameworks regionais, incluindo GSMA T-ISAC (global), ET-ISAC (Europa), ICT-ISAC (Japão) e outros, agregam camadas de conscientização, alinhamento regulatório e cooperação transfronteiriça. O ET-ISAC da Europa realiza chamadas quinzenais sobre inteligência de ameaças entre equipes de resposta a emergências computacionais e centros de operações de segurança (CERT-SOC), além de um benchmark anual de segurança. O GSMA T-ISAC inclui fornecedores ao lado de provedores de serviços, algo que o C2 ISAC não faz no momento. Essas são estruturas valiosas para visibilidade e prontidão. Mas nenhuma delas fornece patches.
O ponto em comum entre as três é a melhoria na agilidade com que o setor identifica e compartilha dados de ameaças. Contudo, essas iniciativas não aceleram a correção prática das vulnerabilidades.
Tschersich, da Deutsche Telekom, resumiu a questão central em resposta direta às constatações do Glasswing: "A IA encontra vulnerabilidades mais rápido do que nunca. Mas encontrar com mais rapidez não significa corrigir com mais rapidez. Cada dia economizado na aplicação de patches faz a diferença."3
A crise da remediação: Onde reside o verdadeiro risco
Os dados são claros. O principal desafio de segurança do setor migrou da detecção para a correção.
90% do código das aplicações corporativas consiste em dependências open source ou de terceiros. A base de código open source média auditada pela Black Duck agora carrega 581 vulnerabilidades conhecidas — número que dobrou em um único ano.12 O tempo médio até a exploração caiu para 7 dias negativos, o que significa que invasores exploram vulnerabilidades rotineiramente por uma semana inteira antes dos patches estarem disponíveis.13
As abordagens atuais de correção não conseguem acompanhar esse ritmo. Quando uma ferramenta de varredura sinaliza uma CVE (vulnerabilidade e exposição comum) crítica em uma dependência open source transitiva, a resposta típica exige que os desenvolvedores investiguem, obtenham uma nova versão do pacote, recompilem a aplicação, testem possíveis quebras e reescrevam código para acomodar a nova versão. Em ambientes regulamentados, onde os provedores de serviços devem manter configurações de software testadas e certificadas, upgrades de versão forçados podem disparar ciclos completos de recertificação.
As ferramentas de varredura realizam um trabalho importante. Elas mostram às equipes de segurança onde estão os problemas. Mas não os corrigem. O resultado de um scanner é painel de informações com os dados obtidos. O risco se acumula na lacuna entre esse dashboard e um artefato corrigido, assinado e pronto para produção.
Soluções paliativas internas — como bifurcação de pacotes para aplicação manual de patches, acúmulo de risco pendente e adiamento de upgrades para preservar a estabilidade — criam seus próprios problemas. Cada bifurcação interna que diverge do upstream, gera encargos de manutenção permanentes. Pendências de risco culminam em falhas de auditoria. Adiar os upgrades aumenta a dívida técnica. Nenhuma dessas abordagens possui escalabilidade quando a IA gera milhares de novas vulnerabilidades a cada mês.